sexta-feira, 16 de novembro de 2012

O fantasma da guerra.

Os nomes e rostos que se perderam.
Voltando para te assombrar.
Seu destino esteve nas mãos deles e você falhou.
Eles perderam o bem mais precioso por um motivo fútil.
A missão que te foi dada,  não foi cumprida.

O fantasma da guerra veio para você. 
Junto com ele, o seu batalhão de soldados caídos.
Junto com ele, os barulhos de bombardeio.
O árido canto dos projéteis cortando o ar.
O calor do campo, a sujeira e o aroma de morte.

Você não será o primeiro, e nem será o último.
Você será o próximo.
O fantasma da guerra não tem rosto.
Está esperando.
Vai continuar andando ao seu lado. 
A menor chance que você der, ele vai aproveitar.
E não vai ser um bom dia, comandante.

Ele te estende a mão. 
Te dá sua arma, a arma da nobreza militar.
Você aponta ela para sua têmpora.
Anseia por se juntar aos seus companheiros perdidos.
Busca paz na ponta da bala.
E puxa o gatilho.
O fantasma da guerra, veio te buscar...

domingo, 4 de novembro de 2012

Andando.

Resolvi sair andando por aí.
Peguei meu tênis mais surrado e fui dar uma volta.
As ruas vazias, quase chegando o dia.
O vento sopra, e com ele leva as folhas.
Folhas, que também estão andando por aí.

Sozinho, apenas andando e vendo.
Ouvindo as músicas que me agradam, observando o dia começar para muitos, e terminar para alguns.
A luz do sol, começando a se impor sobre a luz artificial criada por nós.
Alguns estão indo trabalhar, olham pra mim sem entender o porque de eu estar caminhando sozinho naquela rua sempre deserta durante a manhã.

Assim, sozinho, eu consigo me sentir parte do todo.

sábado, 3 de novembro de 2012

Abandonado, final.

Finalmente, o telhado.
O topo.
Perto do céu.
Uma bela noite, estrelada.
Hoje tem alguém com você, anjo, filho do deus homem.
Criatura grandiosa que foi abandonada.
Ninguém quer morrer sozinho.
Esta noite, eu estarei aqui, deitado no seu terraço.
Esperarei a sua morte, e te farei companhia.
Guardei algo em cada uma de suas salas, assim suas portas guardarão algo.
Assim, suas paredes vão impor limites.
Seu teto as vai proteger da chuva.

Suas escadas ajudaram alguém a se elevar, hoje.
Seu gerador e sua caldeira já não tem mais saída, mas alguém se lembrou da importância que eles tem, hoje.
E quando você se for, alguém vai estar lá para te dar a mão, mesmo que metaforicamente.
Espero que tenha conseguido fazer você se sentir vivo outra vez.

Abandonado, parte 2.

Acendo minha lanterna, e vou indo para o coração dessa gigante criatura que um dia teve um nome de santo.
Criatura filha do homem.
Feita para servir o homem.
Para abrigar o homem.
Seria esse lugar um anjo?

É triste ver um anjo nesse estado.
Caído, maltratado, sujo.

Chego no coração da coisa.
Uma caldeira para um aquecedor e três geradores de energia.
O ar aqui é pesado, aqui já foi um centro forte de emoções, positivas e negativas.
Tanta gente que já passou por esse lugar.
Se alegrou, se entristeceu.
Tantas vidas que se acabaram e se começaram aqui.
O silvo do vapor, mesmo sem funcionar.
Eu consigo ouvir.
O barulho dos geradores, mesmo estando parados.

As colunas...
Esse lugar está com osteoporose.
Está condenado, a ponto de ser demolido.
Mas ainda está de pé.
Ainda não desistiu.

E eu também não.
As escadas já não estão elevando mais nada, não estão ajudando ninguém a se aproximar do céu.


Abandonado.

Lugar estranho esse aqui...
Tão vazio, tão sujo.
Tão mal cuidado.

As paredes de azulejo amareladas, já não dividem mais aquele espaço.
O chão sujo, os rejuntes pretos.
Mal consigo ver o teto, que já não protege mais ninguém da chuva.
Uma gota cai no meu ombro.
Uma gota vermelha.
Não sangue, ferrugem.
Um cano, solitário, tirando a cabeça pra fora da escuridão para gritar por socorro.
Algumas portas com salas vazias restaram entreabertas, solitárias, sem sentido.
Já não tem mais nada para esconder. Já não tem mais nada para proteger.
Janelas que não são mais janelas.
Janelas que são apenas uma lembrança de que aqui um dia viveu algo que precisava da luz solar.

É um lugar abafado.
Quente, onde o ar não se recicla.
Meus passos ecoam, fazendo parecer que tem mais alguém andando comigo, mas eu sei que não tem.

Ao final do corredor, uma porta dupla.
Completamente quebrada, como era de se esperar.
Estendo minha mão para empurrar.
A porta não oferece quase nenhuma resistência.
A luz já não alcança essa parte.
E pensar que isso aqui já foi movimentado.
Mas é a esse destino que todo lugar está fadado.

Parece que esse lugar é vivo... E não está passando bem.
E pensar que pode ser assim também, dentro da mente de alguém.

No escuro.

Escuro.
Muito escuro.
Nenhuma fonte de luz, natural ou não.
Um escuro encorpado, dá pra sentir na pele a escuridão.
Vou cortando esse véu negro e a única coisa que ouço são meus próprios passos.
Procuro uma parede, algo para tocar e me guiar, mesmo sem saber para onde eu vou, ou de onde eu vim.
Meus olhos já não me servem.

Estou sozinho.
Andando.
E andando.

Por uma escuridão tão densa que não parece ser natural.
Essa escuridão vai me sufocar, sinto ela dentro dos meus pulmões.
Estou cercado.
Estão me evitando.
Querem brincar comigo.
Tem mais gente aqui.

Dou um pulo pra frente no escuro, pra ver se agarro algo, mas meus braços encontram apenas mais escuridão.
Não encontro saída.
Não tem nada aqui.
Não tem ninguém aqui.

Sou só eu... No escuro... Pra sempre.
E ninguém pode me ouvir.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

O soco.

O punho corta o vento, e colide com o couro.
Os músculos formam uma onda, levando a força que se inicia no pé, passa pelo quadril e termina na mão.
Endorfinas são liberadas, o lado selvagem floresce por um momento.
Nesse momento, todo o seu corpo trabalhou para um movimento rápido e destrutivo.
A energia que você começou a aplicar e fortaleceu com a onda muscular agora passa para seu alvo, que a recebe e a dispersa pela areia que o recheia.
Junto com essa energia vai um tanto da sua raiva.
A adrenalina sobe, seus músculos se oxigenam.
Você desfere outro soco.
Mais adrenalina.
O animal que existe em você vai se libertando cada vez mais.
Ele te dá poder.
O seu rugido está preso na sua garganta.
Quando for dar o último soco, solte o seu rugido, deixe com que seja ouvido.
E depois comece outra vez.
Acostume-se com sua fera.
Deixe com que ela saiba o que fazer quando precisar assumir o controle do seu corpo.
E, se precisar com que tal monstro se solte, só pare quando sua presa for abatida.